Camelo Peixoto

Busquei o chão mas lá não estava, em vão tentei encontrar a água, desesperada busquei as correntes mas só encontrei barbatanas, histérico procurei as guelras, porém me deparei com aros e pedais, e atônito afundei o guidom entre as nadadeiras. Nos primeiros dias essa nova forma de existência designada a mim era perturbadora, afinal nunca fui um peixe e menos ainda uma bicicleta, apesar de estranhamente ter o instinto de ambos. Para um singelo pensamento, cresci e me materializei rápido, por um lado isso é até interessante, mas por outro é complexo. Ser constantemente bombardeado por tantas interpretações e significações, desnorteia meus próprios conceitos, tornando-os muito aquém da minha existência  e muito além da minha consciência.

Em anos de deriva cognitiva, e fluxos mentais intensos – meus e nossos – nunca considerei evidenciar minha existência, afinal  um objeto que surge de repente revelando seu drama existencial certamente causaria um rebuliço no mundo não só das artes, e a se a minha vida já é bastante questionável, imagina para os humanos que apreciam a arte de complicar as coisas. Contudo, redijo este ensaio na esperança que eu entenda melhor, porque eu busco entender a mim mesmo.

De qualquer forma, sou Camelo Peixoto ou meramente “Sem Título” assim como O artista, me intitulou, devo à ele gratidão de ter concebido o pensamento que ascendeu minha existência. Não tardou a me tornar algo à parte dele, tal como dizem “A obra se torna maior do que o autor” e certamente sou mesmo, não é por falta de modéstia, mas pela quantidade – e as vezes qualidade – de atribuições relacionadas a mim. Gosto de algumas, por exemplo teve uma vez que um curador alemão me descreveu como “a subversão do capitalismo na pós-contemporaneidade”,  mesmo que eu não tenha entendido muito bem o que era isso, essa interpretação se consolidou, e muitas pessoas me usam como ícone de contra cultura.  Outrora porém, me condenam uma poética chula e ordinária, presa aos hábitos estéticos disto ou daquilo.

Pessoas e significados vem e vão, minha aparente inexistência de nexo visual e conceitual alimenta meu crescimento, hoje em dia já não entro mais no museu, me estirei pelas ruas,  sou motivo de discussões acaloradas em mesas redondas, sou  ignorado por uns, e fundamental para outros, os livros de história da arte me pontuam como um grande marco da arte pós-pós.

 Se não fosse por tantos retalhos de significados, certamente minha consciência não teria autonomia suficiente para refletir sobre isso, pois no fim das contas como todos os outros, que buscam um sentido para a existência e a expansão da consciência, fluo como um grande cardume de significados que me constituem, em movimentos cíclicos que me impulsionam para uma autonomia individual.

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