O jornalismo e as p(a)utas

Mais uma mulher vítima de machismo por um profissional que, idealmente, deveria buscar a isenção e a objetividade. Mais uma mulher julgada por suas decisões. Mais uma mulher julgada por um jornalista.

A sorte de Andressa Urach é ser reconhecida nacionalmente, mas a pergunta é: até quando os jornalistas do alto de sua bancada continuarão julgando mulheres, travestis, violentadas sexualmente ou não?

O episódio aconteceu em Florianópolis, no Jornal do Meio Dia, onde Hélio Costa, que já tem um histórico comprometedor com o jornalismo sensacionalista, respondeu uma pergunta que não era dirigida para ele e achou que poderia meter o bedelho na vida de Andressa Urach, que assumidamente diz ter sido prostituta. Comparando Urach com sua mãe, o apresentador só maquiou seu machismo, tentou fundamentar seu julgamento, julgamento que como jornalista ele não deveria fazer.

A prática é comum, vem com a máscara de jornalismo opinativo, mas geralmente é feita sem a presença do “acusado”, que, se quiser se defender, precisa entrar na justiça pedindo direito de resposta. Desta vez, Hélio Costa teve a infelicidade de atacar não apenas uma famosa frente a frente, mas mais do que isso ele atacou uma mulher. E machismo no jornalismo… não dá para tolerar.

Sobre pauta e putas

Não acompanho a carreira de Urach e pouco sei sobre ela, mas como jornalista não cabe a mim dizer que suas decisões estão certas ou erradas. Se o tema da entrevista é o lançamento de um livro que trata sobre a vida dela, é preciso se ater a isso. Independente se ela escreve bem ou mal – ele teria lido o livro? – se está vinculado a uma estratégia de marketing ou se ela dançou na boquinha da garrafa. A pauta não era sobre o que ela fez da vida, a pauta era sobre o livro que ela lançaria em Florianópolis. Simples, não? Parece que não.

Se faltasse só ética, tudo bem, vemos isso em 11 de cada 10 veículos, mas a figura caricata de Hélio Costa ultrapassou o nível do bom-senso, mais do que isso, foi mal-educado. Cadê sua mãe exemplar para lhe ensinar que não se interrompe os outros quando estão falando? O apresentador se exalta quando a entrevistada admite ter feito coisas que se arrepende e vomita desaforos. Não cabe, como jornalista, opinar sobre a vida de uma puta, de um policial ou político: destes três, quem tem a vida avaliada?

Mas por que será que incomoda tanto? Uma mulher ter escolhido pelo prazer? Uma mulher mandar em seu corpo ao invés de se submeter à vontade de outros? Uma mulher dar a cara a tapa dizendo o que já fez? Em suma, uma mulher que não se resignou ao conservadorismo machista? Sua mãe pouco importava ali, sobre seu pedestal de homem branco ele julga uma mulher e não permite que outra, sua colega, fale.

E isso acontece por todos os lados, na mesa do boteco, em redes sociais e não só em programas sensacionalistas – difícil dizer que são jornais – que julgam e ridicularizam travestis e prostitutas, seja as de luxo ou as de esquina. Afinal, não é difícil lembrar de alguma “reportagem” sobre alguma prostituta sendo ridicularizada numa delegacia qualquer. É sintomático: o preconceito vem antes da compreensão. O apresentador é mais um reflexo do meio em que vive.

Diria Chico: Joga pedra na Geni. Jogou.

Desculpas até quando?

Hélio pediu desculpas no Facebook (de acordo com a lei, Urach teria o direito de resposta no mesmo programa e tempo utilizado pelo apresentador para se defender). Um pedido vago, ridículo e cheios de erros. Sua desculpa é risível, quem será que o obrigou a escrever aquelas palavras vagas que contrastam com a estupidez que teve para interromper sua colega e a entrevistada?

Todo esse episódio, que terminou com Andressa chorando, a produção tendo que interromper entrevista (e o homem ainda querendo atrapalhar), lembrou-me uma pergunta que certa vez ouvi de uma amiga: até quando os homens acreditarão que podem ser os últimos a declarar sobre a vida das mulheres?

Apesar do ridículo pedido desculpas, Urach ao menos o teve e o aceitou. E quanto às outras mulheres que não têm a mesma visibilidade dela e sofrerão com o machismo de outros jornalistas? Como poderão se defender? O jornalismo precisa mais do que ética, precisa de menos preconceito. Precisa ser mais humano.

Em busca de um jornalismo melhor

As meninas do Coletivo Jornalismo Sem Machismo, da UFSC, estão sempre de olho no jornalismo que ataca as mulheres. E além da visibilidade e problematização do machismo na universidades e principalmente no meio jornalístico e nos produtos jornalísticos elas estão mostrando mais: machismo não passará!

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