boa noite, freiras ou um texto sob(re) (des)cobertas.

Faz pouco mais de um ano que passei minha primeira noite no Convento. Lembro muito bem: ansiosa com a mudança esperada desde a partida, chorei de exaustão (e daquela incompreensão). Depois de uns meses percebi que chorar em algum momento após a chegada no convento era normal. Foi com um choro desconhecido que descobri a grossura (ou seria finura?) de nossas paredes. Pensei “Temos uma nova freira”.
Fiquei com vergonha por estar invadindo um momento tão triste, mas tão necessário, nessa passagem lar-convento que as freiras passam cedo ou tarde, por um motivo ou por outro, nesse convento ou em qualquer outra casa nova por aí. Ao ouvir esse choro perdido, o pior talvez foi lembrar do meu. E em algum lugar alguma freira deve ter ouvido e pensado “Temos uma nova freira”.
Óbvio que de santas não temos nada. O nome veio na brincadeira canhota, na contra mão das regras (tão necessárias) que nos guiam em nossa república. Uma puta duma república:

-Moro numa rep com mais 4 meninas e você?
-Moro com mais 26 😀 [diálogo baseado em fatos reais].
Dava até orgulho, por mais que eu não visse mais do que 5 freiras por dia (e algumas eu até hoje não sei quem são – mas dou bom dia se cruzo no corredor!). E dar bom dia foi uma das grandes descobertas que eu fiz aqui:
Descobri que não é tão difícil dar um bom dia. Descobri que posso sobreviver a um bom dia dado sem resposta. Descobri que viver com um monte de mulher não dá tanta briga quanto se espera e no fim tudo acaba em bolo. Constatei que engordei muitos quilos com tanta comida e festa e batatas e cervejas. E me descobri festeira. Me descobri feminista. Me descobri mãe dizendo “tomem cuidado” e só conseguindo dormir depois de ouvi-las chegando em casa. Tive a plena certeza que falo alto, sou bagunceira e não sei cozinhar bem, mas as freiras me fizeram perceber que posso aprender a falar baixo, arrumar minha escrivaninha e até aprender a fazer um escondidinho de abóbora delicioso! Aprender e me descobrir: esse foi o grande milagre das freiras. Aleluia.
Enquanto divago alguém digita num quarto próximo. Um celular vibra. Uma risadinha. Uma tossida. Alguém ronca de outro lado, lembrando que é hora de dormir. Minha primeira noite foi de lágrimas. A última será de agradecimento.

Boa noite, freiras.

Ps1: eu era do quarto 17, o das bromélias. Prefiro lírios.
Ps2: juro que, agora que posso falar alto, terminarei nosso doc.
Ps3: queria levar cada uma pro Ninho, as que converso muito, as que eu quase não vejo, as chatas e as legais, as que moram no convento e as que já moram em outros ninhos e deixaram saudade. Não tem como, o ninho é pequeno, mas as levo em meu coração ♥

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oi, mãe

O post desta semana vem um dia antecipado e com um toque especial!

Junto com algumas freiras que ficaram no convento neste dia das mães fiz um vídeo para darmos aquele oizim para nossas amadas. A edição não ficou muito legal (o tema pré-definido estragou os cortes), mas como mãe gosta até de porta caneta de rolo de papel higiênico e palito de picolé provavelmente vão gostar do vídeo também.

Então, aqui está nosso porta caneta de rolo de papel higiênico e palito de picolé para nossas mamães

TE AMO, DONA LÍDIA!

Todo dia ela vinha

Seus olhos diziam muito, sua expressão corporal também e, embora a situação em que se encontrava não fosse das mais favoráveis, tudo em Alice dizia que ela estava bem.

Alice era feliz.

Talvez seu pior defeito sempre fora esperar demais dos outros. Às vezes era surpreendida com exageradas demonstrações de carinho – em grande parte motivados por seus olhos doces – e às vezes ela esperava por tempo demais, até as circunstâncias mostrarem que daquele mato não sairia coelho.

Tudo bem, ela não se decepcionava.

Alice era feliz. Com seus olhos felizes,  rabo abanando felicidade,  seguia em frente,  buscando alguém que lhe desse um pouco de açúcar ou afeto.